quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Fwd: Jornalismo do deboche



---------- Forwarded message ----------
From: Murillo Serra Costa <jmurilloscf@gmail.com>
Date: 2005/4/5
Subject: Jornalismo do deboche
To:


Excelente artigo de Stephen Kanitz:

Muitos leitores perguntam por que nunca escrevo artigos
ridicularizando George W. Bush, desancando o governo PT ou
ridicularizando as bobagens ditas por algum de nossos governantes.

Não faço este tipo de colunismo porque é ilimitada a quantidade de
bobagens feitas por seres humanos. Estaríamos destruindo todo o papel
do planeta se comentássemos cada besteira feita. Depois, o tempo do
leitor é curto, um jornalismo construtivo deveria também divulgar
possíveis soluções e não ficar somente na crítica dos erros dos
outros.

Leitores são presas fáceis desta forma de crítica jornalística, porque
ela insinua equivocadamente que somos superiores aos nossos
semelhantes, governantes e amigos.

Noventa por cento das nossas conversas é para se comentar gafes e
fracassos dos amigos, nunca suas conquistas e realizações, por isto
nunca sou o primeiro a sair de uma festa de amigos.

O jornalista do deboche sabe que o sucesso do outro incomoda, e se
aproveita disto. O jornalismo do deboche não somente mostra que somos
supostamente mais inteligentes do que os que estão no poder, mas tem
uma outra coisa "freudianamente" muito importante: mostra que o
colunista é mais inteligente do que todos nós juntos.

Não pelas suas idéias originais, critério único para se medir
inteligência, mas pela burrice dos outros que o jornalismo do deboche
tem o prazer de desancar. Como o debochador sempre trata do passado,
quando os erros já são óbvios e evidentes, ele tem sempre a vantagem
da onisciência, algo que o governante não teve na hora da sua decisão.

Não faço referência àqueles que escrevem uma crítica de forma
construtiva, precisamos ser informados das mazelas e erros do governo.
Um artigo debochado de vez em quando nos faz rir e permite agüentar o
fardo da incompetência alheia. Mas muitos fazem do deboche a sua
especialidade, sua razão de ser.

O jornalismo deve criticar e ao mesmo tempo propor soluções para serem
discutidas, inclusive correr o risco de ver a idéia debochada. Só que
aí, o artigo teria de ser inovador, competente, criativo, sensato,
conciliador, persuasivo e corajoso. A crítica barata é muito mais
fácil do que a análise profunda. A análise requer pesquisa, números e
estatísticas, o deboche só precisa de uma língua afiada.

Se você adora o jornalismo do deboche, porque ele é engraçado,
lembre-se que você está rindo de si mesmo, e embora autocrítica e umas
risadas sejam sadias, limitar-se a isto é dar um tiro no pé. O Brasil
está diariamente dando tiros no pé, e achando graça.

Num congresso de estudantes colocaram-me para falar em penúltimo
lugar, e o encerramento foi feito por um profissional do deboche. Ele
simplesmente destruiu o meu discurso otimista anterior, dizendo que o
Brasil jamais daria certo, de que estávamos condenados pelo gene do
patrimonialismo português, que o fracasso estava no nosso sangue, e
assim por diante. Para a minha grande surpresa, a platéia simplesmente
adorou. Riam a valer, e no final aplaudiram de pé. Inacreditável para
mim!

Se um grande intelectual prevê que o Brasil jamais dará certo, não
precisamos nos esforçar. Pode-se justificar o nosso fracasso pessoal,
nossa mediocridade individual, como sendo inevitável, é nosso destino.
"Não preciso melhorar, a culpa não é minha, a culpa é do Brasil, a
culpa é dos portugueses".

Muitos de nossos intelectuais jogam para a platéia, curvando-se à
força do mercado, um discurso de que jamais daremos certo, quando a
função do intelectual seria justamente mostrar as soluções, mostrar o
caminho, mostrar o que nós pobres mortais não vemos.

Onde estão os poetas que antes nos inspiravam e motivavam, onde estão
os filósofos que nos mostravam a essência do que está ocorrendo, onde
estão os padres com seus sermões edificantes, onde estão os
visionários que nos mostravam o caminho? Eles estão presentes como
sempre estiveram, mas hoje estão sem platéia, porque o jovem
brasileiro está encantado com o discurso do deboche, é sempre mais
fácil culpar os outros.

O jornalismo do deboche é um fenômeno mundial, atingiu até o New York
Times. Se acabou acreditando que você é mais competente que Lula, FHC
ou Bush, consulte um especialista.

O mundo não é tão simples nem tão ridículo quando lhe fizeram
imaginar. Graças a Deus!

Por Stephen Kanitz



--
Murillo
When Life Gives You Questions, Google has Answers

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