From: Murillo <jmurilloscf@gmail.com>
Date: 2006/1/20
Subject: Ahh, moleque!!
To:
"Você vai descer a todos os infernos e cair em todos os abismos, mas mantenha o seu garoto vivo: é ele quem vai te dar a mão para te ajudar a subir novamente à superfície e a rever o sol."
Com o passar do tempo, foi compreendendo o que ele queria lhe dizer, e apesar de tudo que passou, não enlouqueceu. Conseguiu manter o garoto vivo, e o garoto fez a sua parte, cuidando dele. Cuida até hoje, no presente instante. É o melhor, talvez o seu único verdadeiro amigo. Foi graças a ele que pôde ter vários recomeços.
E assim finalmente chegara ali. Não suportaria, se não soubesse ser inevitável. Era o seu epílogo, e por algum motivo aquele posfácio estava se tornando um texto extenso. Seria doloroso sem a ajuda do moleque. Aquele quarto de hospital cheirava a velório.
Estava ligado a várias máquinas que o mantinham monitorado. Fazendo um rápido balanço, tinha agora 93 anos, 8 filhos, 13 netos, 4 bisnetos. Depois de várias tentativas, conseguira finalmente estabelecer o seu próprio negócio. Era um homem rico, mas aquele hospital de luxo estava saindo de graça, pago um plano de saúde que sempre lhe parecera supérfluo, mas que agora se justificava plenamente. Assim, a herança financeira ficara intacta, aguardando a hora de ser distribuída entre os seus. A herança moral, já havia distribuído ao longo dos anos.
Quando eventualmente acordava daquele sono profundo, nunca abria os olhos, malandramente não denunciava o seu retorno. Não tinha espaço para pieguismos, não queria ver os seus à sua volta chorando, lamentando pelo inexorável. A sua atenção se voltava para outras questões, mais divertidas. Mais que se incomodar com os tubos que o penetravam ou se concentrar nos pib-pibs das máquinas a que estava ligado, chamava por ele e ouvia de volta o moleque lá dentro perguntando: - e aí, vamos brincar?
Ele prazeirosamente respondia prendendo a respiração: passados alguns instantes, as máquinas ganhavam vida, todos os alarmes disparavam, vinham médicos e enfermeiras correndo como loucos! E como num passe de mágica, voltava a respirar, os indicadores voltavam ao normal, os médicos suspiravam de alívio e ficavam à sua volta em grupos preocupados, sussurrando de forma ansiosa, debatendo sobre o seu quadro clínico, sobre o que estaria provocando aquelas alterações, estabelecendo novos exames com urgência. E ele se divertia muito com todo aquele alvoroço. Quando todo o movimento acalmava, prendia a respiração de novo! Ahh, moleque!!!!
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Murillo
When Life Gives You Questions, Google has Answers
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